A crise de saúde pública provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, já está a ter um impacto negativo no negócio de muitas start-ups portuguesas – um estudo da Aliados Consulting em parceria com a FES Agency, publicado no final de março, revelava que 73% das start-ups portuguesas já estavam a ser afetadas pela situação de contenção criada pela COVID-19, com quase metade (43,9%) a assumirem perdas superiores a 60% nas vendas.

No entanto, há também casos de sucesso junto destas empresas emergentes que se têm reinventado e procurado novos caminhos nesta fase, conseguindo reforçar os seus projetos online. É o caso de quatro start-ups de diferentes áreas que o Watts On escutou: Loop Co (setor da tecnologia e economia circular),COOKOO (área da restauração e home delievery), UpHill(área de healthtech) e Azul(combustível ao domicílio).

DE QUE FORMA E COMO É QUE CONSEGUIRAM DAR ESSE SALTO?

Com o apoio da agência The Square, o Watts On ouviu ainda os responsáveis destas jovens empresas para perceber de que modo o tumulto que o país e o mundo vivem está a afetar o tecido empresarial das start-ups e quais os caminhos que estes CEO anteveem como possíveis para que este género de empresas com forte caráter inovador possam mitigar os efeitos económicos adversos desta pandemia.

PODEMOS PERDER GRANDE PARTE DAS NOSSAS START-UPS? HAVERÁ NOVAS ÁREAS DE NEGÓCIOS A SURGIR?

1. Dos contactos que mantêm com outras start-ups, qual a análise que fazem, de uma forma geral, ao impacto que a pandemia está ou virá a ter na vida deste jovem tecido empresarial?

2. Consideram que há mais casos de start-ups em dificuldades ou mais situações de start-ups que, neste tempo, conseguiram cimentar o seu sucesso?

3. Nuns casos e noutros, quais entendem que foram os fatores decisivos que levaram a que para umas start-ups esta situação de pandemia tenha provocado instabilidade e que para outras start-ups tenha sido um momento de oportunidade e crescimento?

4. Do que conhecem, as start-ups e os seus “angels”/investidores têm capacidade de resiliência necessária para acomodar o efeito da crise e continuar a investir?

5. Podemos perder grande parte das nossas start-ups?

6. Dos contactos mantidos com outras start-ups nacionais, têm relato de terem havido casos de empresas que foram forçadas a reduzir os seus recursos humanos devido à crise?

7. No vosso caso, conseguiram “reinventar-se” nesta fase? De que forma e como é que se adaptaram?

8. Vão criar algum serviço novo ou apostar nalguma funcionalidade nova para a segunda metade do ano?

9. O pós-COVID-19 fará despontar novas áreas de negócios em termos de start-ups? Quais é que anteveem como mais fortes?

10. Quais as consequências práticas que o ímpeto que a digitalização teve neste relativo curto espaço temporal (nas mais variadas áreas e suscitada pela necessidade de distanciamento social) trará daqui para a frente?

► João Bernardo Parreira (CEO da The Loop Co.), Eduardo Freire Rodrigues (CEO da UpHill), Pedro Sanches (partner e cofundador da COOKOO) e Hugo Botelho (fundador da Azul) respondem às questões que o Watts On lhes colocou:
Ainda é cedo para prever o impacto que a crise poderá ter no ecossistema, até porque desconhecemos quando toda esta situação terá fim. É certo que um fenómeno com impacto global, como é o caso de uma pandemia, afeta todas as áreas da sociedade e vai ter um impacto brutal na economia, mas há dois sinais de esperança para as startups: por um lado, a proatividade que mostraram desde o primeiro momento em arregaçar as mangas e contribuir como podiam para minimizar os efeitos do vírus e, por outro lado, as medidas já anunciadas para apoiar as empresas em dificuldades.
Os dados divulgados publicamente no final de março sobre o primeiro impacto da pandemia no ecossistema, revelaram que 73,1% das startups já sofria impactos negativos com a crise do novo coronavírus e quase metade (43,9%) assumia perdas superiores a 60% nas vendas. Embora isto seja verdade nos setores de mobilidade, turismo, etc estamos a verificar um crescimento do setor de Digital Health onde a UpHill se encontra. No mesmo estudo realizado numa parceria entre a Aliados Consulting e a agência de comunicação FES Agency, apenas 6,4% das startups afirmava que o impacto desta situação de saúde pública estava a ser positivo nas vendas e, na sua maioria, estas empresas atuam nas áreas da saúde e do bem-estar.
Creio que o facto de ser uma start-up não atenua em nada os efeitos de uma pandemia como a que estamos a viver, antes pelo contrário. É evidente que a pandemia está a ter um impacto negativo em muitas start-ups, que nunca viveram folgadas e agora, com um rombo nos negócios, vêm a sua sustentabilidade comprometida. Não é por acaso que uma série de empresas se reuniu para pedir apoios ao Estado, é que algumas só poderão sobreviver se, de facto, forem tomadas algumas medidas para os próximos meses. Contudo – e felizmente – também há muitas start-ups que aproveitaram esta situação para se reinventarem, oferecerem novos serviços, renovarem as suas formas de trabalhar e que estão a surfar esta onda com algum sucesso. Por outro lado, temos ainda as pequenas empresas que já trabalhavam com serviços de entregas em casa, como o COOKOO, que é uma plataforma de entrega de comida ao domicílio, e que tiveram aqui um pico de procura, já que a população está em confinamento. Para estas – como para nós – a pandemia representa uma evolução muito positiva no negócio e uma oportunidade para reforçar o posicionamento e a oferta das marcas, de forma a consolidá-las no mercado. E além do lado empresarial, estamos a ajudar as famílias a passar esta fase tão peculiar da melhor forma possível e em segurança – em casa –, o que também nos deixa satisfeitos e com o sentimento de que estamos a contribuir para atenuar os efeitos desta pandemia.
De um modo geral, as consequências resultantes da pandemia serão penosas para a economia e terão certamente um impacto negativo para as empresas. No caso de startups, este cenário também se aplica e há um receio generalizado no que diz respeito aos possíveis efeitos no desenvolvimento e sobrevivência dos nossos negócios. Se a situação é complicada para empresas com negócios sólidos que estão presentes no mercado há largos anos, mais complicada se torna para quem está a agora a começar, pois o risco de sofrer uma queda no investimento é maior. Felizmente, há sempre exceções à regra e a verdade é que apesar do cenário pessimista, a pandemia tem constituído uma oportunidade para muitas startups se adaptarem à nova realidade e reinventarem totalmente os seus negócios. Ainda que seja um trauma para toda uma geração de empresários, esta situação vai tornar-nos mais fortes e mais preparados para futuros problemas! Além disso, estamos também a assistir a uma união do ecossistema para combater esta pandemia e que tem sido essencial para dar apoio à linha da frente deste combate.


Varia sobretudo por uma questão de exposição à paragem forçada da economia e da capacidade que essas startups tiveram para se adaptar e reeinventar. Se pensarmos em estruturas semelhantes à The Loop Co., que desenvolve soluções tecnológicas e de economia circular baseadas no digital, poderemos dizer que estão numa situação vantajosa, comparativamente com outros negócios mais dependentes da presença física de clientes.

O impacto dependerá sobretudo do setor em que operam. As startups são por definição empresas ágeis, com uma capacidade de resposta rápida, apesar de, habitualmente, terem recursos humanos limitados. Os setores mais afetados serão, necessariamente, os que têm modelos de negócios que estão dependentes da presença física dos clientes, nomeadamente na área do turismo, restauração ou hotelaria. A economia partilhada também foi totalmente afetada pelas regras de distanciamento social. Do lado positivo, encontramos as startups que conseguem ir ao encontro, de forma direta ou indireta, das necessidades e receios, como aqueles que, por exemplo, o coronavírus criou.

De uma forma geral, provavelmente existem mais start-ups afetadas negativamente. Mas se pensarmos no nosso mundo, do home delivery, 100% do tecido empresarial teve aqui uma boa oportunidade para cimentar os seus negócios.
Quero acreditar que há um equilíbrio entre ambas. Se é verdade que há muitas startups em dificuldades, também é verdade que há muitas a beneficiar com esta situação e muitas outras que estão inclusive a surgir neste contexto, como é o caso da Azul. É um período em que o trigo e o joio serão separados, em que mesmo que exista uma quebra de rendimentos, as boas empresas irão validar os seus modelos de negócio e garantir uma boa posição no futuro.


Tudo gira em torno da dependência do contacto direto com os clientes. Com o país fechado em casa, as últimas semanas ficaram marcadas pelo peso que as compras online tiveram face ao total das compras efetuadas. Isto acontece porque o e-commerce se afirmou como a única possibilidade de acesso a bens não essenciais por parte dos consumidores. Os dados disponíveis sobre o consumo em Portugal mostram não só um forte crescimento nos produtos essenciais (saúde, higiene e alimentação), mas também em produtos como livros e material informático. É óbvio que esta disparidade não está apenas relacionada com a capacidade de adaptação das startups, mas também com o próprio serviço que oferecem, e, por isso, setores como o turismo ou o têxtil têm visto as suas vendas cair. Adicionalmente, o nível de maturidade das empresas também tem influência para estas contas. Empresas com maior estabilidade e com mais recursos vão conseguir um maior equilíbrio entre o próprio negócio e os recursos humanos e ultrapassarão esta fase mais facilmente.


A maturidade das empresas é, em contextos de crise, um fator relevante, na medida em que de alguma forma define a “margem de manobra” para se adaptarem. Assim, startups com modelos de crescimento mais sólidos estão numa posição mais vantajosa para, por exemplo, superarem uma quebra nas receitas.
Por outro lado, no contexto específico da pandemia que vivemos, assistimos a uma mobilização do ecossistema para encontrar respostas e ajudar a comunidade, o que é absolutamente válido, mas não necessariamente vantajoso para todas as startups.
A tecnologia aplicada à saúde tem necessariamente que responder a um conjunto de regras que garantam a segurança e a eficácia das soluções desenvolvidas. As pandemias tendem a ocorrer espaçadas no tempo; o coronavírus vai permanecer no centro das atenções durante os próximos meses, mas não vai definir a humanidade. De um momento para o outro, alterar o foco de uma startup para responder a necessidades muito específicas e totalmente díspares daquelas que são a proposta de valor inicial da empresa, não me parece viável.
Todos queremos ser parte da solução, mas valorizar o trabalho feito até aqui e dar-lhe continuidade é o caminho mais proficiente para as startups. Isto pode significar encaminhar os produtos para as necessidades específicas do contexto pandémico, no caso das startups que já operam na área da saúde digital, biotecnologia ou outras, mas não para outras tecnológicas totalmente alheias a esta realidade. Caso contrário, podem estar a desperdiçar tempo e recursos em soluções que, ou por não estarem articuladas com as necessidades das autoridades que lideram o combate à pandemia, ou por não terem uma adesão massiva, acabam por não ter impacto.

A meu ver, a instabilidade num negócio não está tanto relacionada com o facto de ser start-ups ou não, mas sim com o tipo de serviço que oferece. Acredito que as empresas que já promoviam – ou que entretanto se adaptaram para promover – serviços via canais digitais, e cujo o contacto físico não fosse um requisito, consigam superar as dificuldades que esta pandemia traz de uma forma mais fácil e, em alguns casos até, fortalecer o seu posicionamento no mercado. Os portugueses estão confinados em casa há semanas, não saem para fazer compras, mas continuam a precisar de tudo. Por isso, acabam por pedir tudo para casa, sejam presentes, brinquedos para entreter os miúdos, livros, roupa já a pensar na fase em que sairão de casa, compras e refeições. As famílias, que habitualmente cozinhavam uma vez por dia, ao jantar, têm agora uma tarefa redobrada na alimentação, com os filhos em casa, o que exige não só uma grande disponibilidade – para trabalhar, dar atenção às crianças e ainda cozinhar -, como também uma forte criatividade, para fazer refeições equilibradas, fáceis e atrativas. Mas nem sempre é fácil e, aqui, plataformas de entrega de refeições ao domicílio como o COOKOO acabam por ser a grande mais-valia, pelo que é normal que todas tenham tido um bom crescimento nestes dois meses. No COOKOO, temos ainda a vantagem de ter, num único espaço, oito restaurantes com ofertas gastronómicas distintas, o que faz com que, através do site ou da app, as famílias possam facilmente pedir, numa só encomenda, refeições para toda a família, desde sopas a assados, ou de pizzas a sushi. Por outro lado, o COOKOO controla o seu serviço desde a cozinha à entrega e, por exemplo, tem uma frota própria, com motoristas exclusivos, o que dá maiores garantias de segurança na entrega, por isso, é natural que haja mais famílias a escolher as nossas refeições para as suas casas.

Build to last and build to sell: este é o grande fator decisivo! Além da própria pandemia, que por si só é também um grande fator decisivo para ambos os casos, creio que a área de negócio de cada startup está intimamente ligada à situação que cada uma vive atualmente. Negócios na área da saúde, de bem-estar e que apresentam soluções online úteis para o contexto que vivemos são as que encontram oportunidades de crescimento com a pandemia. Áreas de atuação como o turismo ou a restauração, por exemplo, encontram neste momento maiores desafios à estabilidade e sobrevivência dos seus negócios. Ainda assim, tudo depende também da capacidade dos seus investidores e da capacidade de se adaptarem às necessidades que emergem.
Durante este processo, a The Loop Co. fechou um ronda de investimento de 375 mil euros na qual participou o Fundo Bem-Comum e o Fundo de Inovação Social, o que é um sinal muito positivo de confiança dos investidores e mostra que continuam interessados em apostar em boas ideias, apesar da fase peculiar que estamos a viver. Por isso, acredito que possa acontecer o mesmo com outras startups. Claro que qualquer custo, tanto para investidores como para as próprias startups, será acompanhado de mais incertezas, mas esse é um fator inerente a qualquer investimento em capital de risco, tal como o nome indica.


Esta não é a primeira crise que o ecossistema português enfrenta e já assistimos a exemplos de resiliência anteriormente. Muito dos fundos tiveram o seu fundraising em 2019 e têm agora um prazo de 2-3 anos para investir em empresas. Vemos que há uma retração em novos investimentos, mas o dealflow tem continuado.
Uma pandemia tem repercussões em todas as áreas da sociedade e, consequentemente, também na economia. Acredito que a confiança dos investidores dependerá, mais uma vez, do setor em que cada empresa opera e, consequentemente, do impacto que a desaceleração económica teve para essa empresa, nomeadamente se foi obrigada a interromper ou diminuir drasticamente a sua atividade.
No nosso caso, tendo em consideração o setor em que operamos e o crescimento consolidado da empresa nos últimos anos, este período tem sido interessante e com várias oportunidades.

Penso que esta situação vai variar muito de caso para caso. Start-ups que sejam demasiado afetadas pela pandemia, e que já tenham passado por um período de cash-burn muito longo e sem indícios ainda de dar a volta, terão certamente a vida mais complicada do que start-ups que, por características do negócio, possam aproveitar para se reafirmar durante a pandemia. Nesses casos, creio que os investidores, têm mais apetência por injetar mais capital. No caso da plataforma de entrega de comida ao domicílio do COOKOO, esta questão é independente da pandemia, dado que a pandemia veio contribuir para uma melhor performance do que no contexto pré-pandemia. Aqui, o que os investidores nos irão exigir é que consigamos nos reinventar para que, num período pós pandemia, consigamos manter a mesma performance e os mesmos rácios de crescimento que conseguimos agora.
É normal que se comece a assistir a uma retração do investimento de capital de risco, sendo que algumas rondas que estavam a ser fechadas ficaram em standby. A diminuição de liquidez já começa a ser um desafio, por isso, apesar da sua capacidade de resiliência, os investidores portugueses e internacionais terão de começar a encontrar mecanismos para que consigam ter recursos suficientes para próximas rondas. Não podemos deixar as fontes de inovação e crescimento descuidadas, sobretudo se partirmos da premissa de que este é o momento em que a economia digital vai triunfar e em que devemos apostar com toda a força. Assim, acredito que os próximos investimentos serão feitos com maior rigor e menos risco, mas que os investidores irão certamente dar prioridade aos setores que mais irão crescer no pós-pandemia e investir nas startups que acham menos arriscadas e com mais potencial.

Em circunstâncias normais, as estimativas apontam para que um terço das startups feche portas ao fim de um ano, portanto, com a complexidade económica trazida pela Covid-19, é natural que aquelas que já estavam numa situação mais frágil sejam prejudicadas.

É certo que muitas startups tiveram que redefinir as suas prioridades e, provavelmente, ajustar custos. Um estudo desenvolvido pela Startup Genome coloca 40% das startups na intitulada “zona vermelha”, o que significa que, nas circunstâncias atuais, só têm meios para operar durante três meses ou mesmo menos. Ao mesmo tempo, os efeitos dos coronavírus não são iguais para todas as estruturas ou modelos de negócio: o mesmo estudo revela que as startups B2C têm três vezes mais probabilidade de crescer quando comparadas com as B2B. Especificamente sobre o contexto português ainda não temos dados disponíveis e é cedo para exercícios de futurologia. A incerteza que marca este período, tanto do ponto de vista científico como do ponto de vista económico, devido à imprevisibilidade de duração e do impacto que poderá ter, torna difícil avaliar essa questão. É certo que haverá um impacto brutal em todas as áreas da sociedade, mas, simultaneamente, também temos exemplos da capacidade de adaptação destas empresas para fazer face a este período.


Para já, as empresas estão a fazer um esforço em manter os postos de trabalho e algumas até a recorrer a mecanismos disponibilizados pelo Estado, mas será uma tarefa desafiante. Por outro lado, conhecemos casos de start-ups de áreas da saúde ou da tecnologia que, por se terem reinventado nesta pandemia, não só mantiveram os colaboradores que tinham, como tiveram de reforçar as equipas, o que é um bom sinal. No COOKOO, tínhamos atingido um certo nível de eficiência na época pré-pandemia, mantendo o crescimento da nossa atividade com menos recursos humanos do que inicialmente. Contudo, durante a pandemia tivemos necessidade de reforçar as equipas, não apenas nas cozinhas, mas também no balcão e na logística.
Não! É verdade que vamos perder algumas empresas, mas vamos ganhar ainda mais, o que vai permitir dar a esperança a toda uma geração de que há ainda muito para fazer e reconstruir no mundo digital.



Mais uma vez, a nossa experiência é muito positiva e continuamos a contratar. Desde que começámos a trabalhar remotamente, já concluímos o processo de recrutamento e integrámos na equipa dois novos elementos. Vamos também lançar, em breve, um programa de estágios de verão, que acreditamos poder ser ainda mais benéfico nesta fase, dando oportunidades de trabalho aos jovens. Sabemos, no entanto, que o cenário não é tão animador para muitas empresas: em termos globais, praticamente 40% das startups foram forçadas a reduzir os recursos humanos em 20%. Estes números são preocupantes, mas, mais uma vez, só no final de toda esta situação conseguiremos ter uma visão realística do impacto da pandemia no ecossistema.
Não temos dados relativos às startups em particular, mas os números provisórios relativos à primeira semana de abril, revelam que, entre trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo lay-off, trabalhadores independentes que perderam parte do rendimento, pais que ficaram em casa para cuidar dos filhos e quem já perdeu o emprego, eram mais de 900 mil as pessoas que já viram o seu rendimento afetado por esta crise. É público também que mais de 100 mil portugueses pediram para ter acesso ao subsídio de desemprego entre o início de março. Esta realidade não é alheia às startups. Em termos globais, estima-se que 74% das startups já tenha recorrido à redução de recursos humanos.


O COOKOO já tinha um serviço essencial para esta fase, mas também fizemos questão de oferecer novas opções aos nossos clientes, para um serviço ainda mais completo.
Nós levamos a casa dos lisboetas refeições de grande qualidade, com menus idealizados pelo chef Manuel Perestrelo, de oito restaurantes que abrangem os mais diversos gostos, desde comida caseira, a mexicano, italiano, sushi, entre outros. Nestes últimos meses e a pensar em abranger, de facto, o máximo de gostos possíveis – porque estamos todos em casa e queremos também a maior variedade possível –, fizemos já dois lançamentos, de um restaurante vegetariano (o Garden Gourmet) e da principal casa de croquetes da capital, a Croqueteria, que estava fechada e agora, com o COOKOO, chega a casa reinventada. Estamos também a trabalhar numa nova marca de hambúrgueres, a United, e a alterar alguns menus dos restaurantes já existentes, para que a oferta esteja cada vez mais alinhada com a procura.
Às novas ofertas, claro, juntamos um grande reforço das medidas de segurança e higiene. Enquanto kitchen hub, controlamos todo o processo, desde a preparação das refeições à entrega, e isso facilita o controlo de qualidade e de segurança.
A maioria dos responsáveis das startups com que estou em contacto teve de rever as suas políticas de contratação, e em alguns casos de redução, mas estando perfeitamente conscientes de que é algo temporário. Acredito que as startups têm modelos de gestão adaptados para a realidade atual- digital, consumer centric, remote work-, com metodologias ágeis que permitem aguentar o choque, mesmo que este implique reduzir temporariamente a força de trabalho, e que permitem igualmente encarar o futuro de maneira confiante e com as melhores perspetivas em vista.



Em primeiro lugar, reforçando a aposta no comércio eletrónico através das nossas duas plataformas de economia circular – a BabyLoop e a Book in Loop. Interrompemos a entrega de encomendas em loja e tornámos gratuitos todos os portes de envio ao domicílio. O resultado foi o nosso melhor mês de vendas desde a abertura, potenciado pelas entregas em casa. Além dos nossos produtos próprios, como provedores de tecnologia na área do comércio eletrónico a parceiros do retalho, fomos chamados de emergência a fazer adaptações necessárias ao período de pandemia nos sites de venda e serviços. Sabemos que este é um período que nos pede um esforço adicional, mas o trabalho agora desenvolvido deixará marcas positivas na economia digital em Portugal.
A UpHill é uma startup que se encontra no cruzamento da medicina e da tecnologia, com um conjunto de soluções digitais que dão informação científica mais relevante para a abordagem diagnóstica e terapêutica de um vasto conjunto de doenças. Perante o cenário atual, o primeiro desafio foi, precisamente, transpor o nosso âmbito de trabalho para esta nova doença, ou seja, colocar à disposição dos profissionais de saúde e dos grupos hospitalares com quem trabalhamos informação científica sobre o novo coronavírus. Já o fizemos, através da construção de casos clínicos virtuais que permitem aos médicos simular a abordagem a estes doentes, num ambiente seguro e realístico. Através do UpHill Simulate, o nosso software de simulação clínica, é apresentado o historial clínico de um doente virtual com um conjunto de sintomas. A partir daqui, o médico pode pedir exames, analisar os resultados, prescrever fármacos, entre outras ações, e assim treinar competências as suas competências práticas. No final, o software entrega a cada clínico uma avaliação da sua performance em comparação às boas práticas definidas internacionalmente.
O COVID-19 acelerou a investigação científica de uma forma sem precedentes e diariamente são publicados inúmeros estudos, com informações muito díspares, o que torna a criação de normas de orientação clínica e o processo de atualização e formação dos profissionais de saúde que estão no terreno num processo ainda mais desafiante. Para responder a esta necessidade, criámos, juntamente com a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e a Evidentia Médica, um consórcio – o COVID19PT-Ciência – que se dedica a um trabalho de bastidores exaustivo de revisão e seleção crítica da evidência científica disponível, de forma a proporcionar informação válida a quem tem de decidir no terreno. Até agora já disponibilizámos perto de 150 artigos científicos revistos.
No âmbito deste consórcio, e mantendo o intuito de discutir temas de interesse para os profissionais de saúde e para a população em geral, promovemos também um ciclo de webinars – “Noites Contra o COVID-19”.
Vamos continuar a lançar novidades, novos restaurantes e novos pratos, mas não só. Vamos também alargar o nosso raio de entregas, para podermos chegar a ainda mais portugueses. Estamos a chegar à zona de Belém e Algés, algumas partes de Odivelas e ao Parque das Nações. Ao longo do ano, é normal que cresçamos ainda mais e alarguemos para novos territórios.


A Azul é o exemplo de uma startup que nasceu no contexto da pandemia. Não nos reinventámos, aventuramo-nos a lançar um serviço novo e que acreditamos ter muita relevância no cenário em que nos encontramos. Além de sermos um serviço totalmente inovador de abastecimento direto de combustível, somos, a partir de agora, o novo standard. As necessidades atuais exigem soluções que vão ao encontro do cliente e por isso, independentemente das necessidades, ter o combustível entregue diretamente no veículo das pessoas é o novo normal. O nosso serviço está na linha da frente para servir todas as atividades que necessitem de combustível e além de nos guiarmos por uma política de zero-contacto, respeitamos, obviamente, todas as regras ditadas por esta nova realidade.

Continuamos focados em dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos até aqui e crescer em termos de clientes, áreas de negócio e presença geográfica. Queremos mudar a relação dos portugueses com a economia circular e com o consumo online responsável. Na BabyLoop continuarão a surgir novidades até ao final do ano, nomeadamente a possibilidade de recorrer ao aluguer de produtos, fazer pagamentos fracionados, passando ainda pela introdução de uma categoria de produtos de produção sustentável e outros serviços à infância. Adicionalmente, estamos a trabalhar com parceiros locais para que a Book in Loop chegue a Espanha já no final deste ano letivo, caminho que será seguido também pela BabyLoop no último trimestre de 2020.
Estamos também a apostar de forma crescente na formação de recursos humanos qualificados nas áreas tecnológicas para conseguirmos acelerar o passo da inovação nas nossas lojas online e nas lojas dos nossos parceiros.
Continuamos focados em dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos até aqui e, no fundo, em continuar a disponibilizar soluções e ferramentas que permitam aos profissionais de saúde prestar melhores cuidados e garantir a segurança dos doentes. Estamos a construir coleções COVID-19 e um curso de replaneamento dos cuidados para hospitais.

Acredito que os comportamentos das pessoas irão sofrer algumas alterações daqui para a frente. As empresas vão ser mais permissivas quanto aos hábitos de trabalho de cada funcionário e os funcionários irão, certamente, aproveitar isso para apostar numa maior qualidade de vida. Como consequência direta teremos portugueses a optarem não ir ao escritório todos os dias e a trabalharem de casa, acabando por dedicar o tempo que antes gastavam em transportes a si próprios. Neste sentido, as start-ups que apostem na melhoria de qualidade de vida e em serviços que se possam usufruir em casa, aumentando as proximidades “entre casas”, poderão crescer bastante.
Por outro lado, e analisando esta situação de forma mais macro, temos uma certeza: esta não é a primeira pandemia, nem será a última. Por isso, haverá, certamente, start-ups que aproveitarão esta pandemia para criar soluções de diagnóstico rápidas, bases para criação rápida de vacinas, ou mesmo uma espécie de receitas “preparadas” para que, após misturas, se possam ter várias combinações que lutem contra diversos vírus. Acredito que este será um segmento que, depois deste grande “susto”, vai atrair bastante investimento.

Até ao fim do ano, iremos propor uma verdadeira “conciergerie” para o automóvel dos nossos clientes, desde o transporte dos seus veículos para as Inspeções automóveis e reparações, a serviços diretos ao veículo como verificação dos pneus, substituição do limpa-vidros, entre outros.



Todas as áreas relacionadas com o comércio online têm aqui uma oportunidade para mostrar a sua potencialidade. Há uma nova tendência chamada shopstreaming que consiste em fundir o comércio eletrónico com as transmissões ao vivo e deverá ser a nova realidade das compras online, interativas, experimentais e em tempo real. Por outro lado, com o aumento da presença virtual vamo-nos habituando a assistentes digitais e chatbots, mas também aumentam as expectativas do consumidor face a esta relação: vamos começar a procurar companhias virtuais personalizadas que nos possam entreter, educar, curar e até com quem criamos amizade.
E, dado que, mesmo depois da crise, os consumidores pensarão duas vezes antes de fazer um investimento, a economia circular deve ganhar um novo fôlego com projetos a surgirem em diversas áreas, nomeadamente na área do pronto a vestir, já que a pandemia está a ter um enorme impacto para o mercado de luxo – os principais fabricantes estimam que o surto do Covid-19 em todo o mundo venha a provocar perdas até 40 mil milhões de euros.

Já há sinais de mudanças nos comportamentos dos consumidores que obrigam a repensar os modelos das organizações e representam oportunidades para novas ideias de negócio. Já há quem fale numa nova fase da “Economia das Experiências”, que passará a ser virtual e imersiva, e que se materializa num um aumento das experiências virtuais em setores como o turismo e o retalho; o a-commerce [comércio automatizado, n.d.r.] também surge como uma nova geração de comércio automatizado; e, por último, as empresas de biotecnologia, que, devido à sua natureza, poderão encontrar uma resposta para o problema atual e catapultar soluções que se mantenham relevantes no futuro.
Vivemos numa sociedade cada vez mais tecnológica – a tecnologia (e até a inteligência artificial) está em tudo, na nossa casa, no nosso carro – e essa presença deve ser cada vez maior nos próximos anos. A pandemia gerada pela covid-19 veio apenas acelerar alguns processos de digitalização que já estavam na timeline, como os alunos terem aulas online, ou os profissionais em teletrabalho. Hoje, até os avós já pedem refeições por uma app, porque se viram obrigados a isso, e agora, com esta aprendizagem, vão procurar cada vez mais opções tecnológicas para o seu dia-a-dia. É um caminho que já estamos a caminhar e que não parará nas próximas décadas.

O pós-Covid-19 vai ser uma alavanca para novas áreas de negócio e essa tendência já se tem vindo a verificar no momento que decorre. São várias as startups que têm vindo a surgir na área da saúde, soluções online na área da educação e do comércio, tudo bons exemplos de áreas que irão vingar no futuro após esta pandemia. Mas, independentemente, das áreas de negócio, as mais fortes serão as que melhor se conseguirem adaptar à nova realidade e priorizarem uma digitalização dos serviços, seguindo a tendência do zero-contacto, que acredito ser o futuro. Temos o mundo de amanhã a reinventar pelo digital!
O comércio online vem crescendo de ano para ano, afirmando-se como um canal obrigatório para um cada vez maior número de setores e foi a chave para pequenos e grandes negócios durante esta pandemia. Mas este pico na procura veio também mostrar que mesmo os grandes retalhistas, com canais online já bastante desenvolvidos, não estavam preparados para tanta procura, como os tempos de entrega das encomendas, que chegaram a ser de semanas, demonstraram.
Acredito que, daqui para a frente, as empresas têm uma oportunidade para se afirmarem definitivamente no e-commerce, gerando não só maior volume de vendas neste canal, mas também – e ainda mais importante – conquistar e fidelizar novos públicos que tradicionalmente estão menos disponíveis a comprar pela internet. Nunca como nestas últimas semanas o e-commerce foi tão importante. Negócios que nunca tinham explorado este canal tiveram aqui a única solução e clientes que raramente ou nunca compravam na internet ousaram terminar o processo.
A questão agora é como vai ser o dia seguinte. As marcas vão voltar aos moldes tradicionais que privilegiam as compras offline? Os negócios mais pequenos, que foram obrigados a reinventar-se e a gerar novas vias de comunicação com o público, vão aproveitar a experiência destes tempos “à porta fechada”? Vai o marketing das empresas ser mais direcionado para o online? Uma coisa é certa: estes tempos de exceção vão deixar marcas profundas no mundo e o comércio não é exceção. No entanto, as empresas não podem limitar-se a aproveitar as circunstâncias atuais, devem aproveitar este pico de procura para melhorar processos e lapidar a proposta de valor. A forma como cada marca conseguir responder agora e assumir uma experiência bem-sucedida pode determinar a fidelização do cliente em detrimento de outra.
De facto, a crise de saúde pública que vivemos veio antecipar a digitalização de algumas áreas da sociedade e, no caso concreto da saúde, acelerar uma série de transformações e o desenvolvimento de uma consciência coletiva, com particular ênfase nos profissionais de saúde e nas administrações hospitalares, de que a digitalização é uma necessidade. Nunca antes se falou tanto na potencialidade da tecnologia, da inteligência artificial e data science para ajudar a conter doenças infeciosas. Os avanços nas tecnologias digitais transformaram o que pode ser alcançado à distância – o fluxo de dados é imparável e a sua análise, com ajuda de algoritmos cada vez mais rigorosos, é crucial para tomar decisões. Numa entrevista à Time, o diretor da Johns Hopkins University, admitiu mesmo que a conetividade é uma das principais vantagens no combate à pandemia. A telessaúde, que não é uma novidade, ganhou decididamente um novo folgo na resposta dos hospitais à epidemia, face à necessidade de restringir ao máximo as idas às unidades hospitalares. Nem falamos de ferramentas sofisticadas capazes de fazer exames ou análises remotas, mas de ferramentas de comunicação básicas que ganharam terreno na comunicação entre médicos e doentes. Esta uma alteração substancial da relação entre a doença, o doente e o sistema de saúde, que se irá manter.

O ímpeto que a digitalização teve neste curto espaço temporal vai mudar radicalmente o mundo como o conhecemos. Se a digitalização já era um processo evolutivo, após a pandemia vamos continuar a verificar uma aceleração digital aplicada nas mais variadas áreas da sociedade. Daqui para a frente, acredito que todos os serviços, os que existem e os que hão de surgir, vão transformar-se profundamente e apresentar soluções tecnológicas que privilegiem a rapidez, o fácil acesso e a política do zero-contacto, não havendo, assim, necessidade de intervenção humana ou espaços físicos para os negócios. Acredito que iremos verificar, finalmente, uma necessidade absoluta em ensinar a todas as gerações linguagem de código para multiplicar, de forma ainda mais forte, esta revolução digital.